Quando se fala no atendimento ginecológico de mulheres lésbicas e bissexuais, o Brasil e o mundo precisam evoluir muito.

Ao levar em consideração que, de acordo com as diretrizes internacionais para a saúde de lésbicas, 5% a 10 % da população feminina fez ou faz sexo com outras mulheres e não existe nenhum método efetivo e realmente praticável de proteção contra as Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), concluindo-se então um grande problema de saúde pública que temos nesse sentido, conforme explica Mayara Santarem, médica e mestranda em medicina integrada pela Universidade de Lisboa, atualmente em um estudo sobre o atendimento médico das mulheres lésbicas e bissexuais.

Segundo Mayara, não existem estudos que esclareçam quais os reais riscos de saúde das mulheres que transam com mulheres. E não somente sobre o atendimento com relação à prevenção de riscos sexuais, mas também, muitas vezes, os médicos nem solicitam exames de rotina para as pacientes pela crença de que não são expostas a riscos.

“E como descobrir quais são os riscos se nem sabemos quais são eles? Há casos relatados de atraso em diagnósticos de doenças como câncer de colo de útero por não ter sido realizado exame de rotina, como o papanicolau, devido a mulher ser considerada “virgem” por ser lésbica”, alerta Mayara.

Atendimento ginecológico de mulheres lésbicas e bissexuais: o problema da falta de conhecimento acadêmico e estudos sobre o tema

Mayara explica que o atendimento ginecológico de mulheres lésbicas e bissexuais não só no Brasil, mas como na maioria dos países, não está adequado às suas necessidades. Existe uma falta de conhecimento acadêmico sobre o assunto, criando uma escassez de conteúdo concreto e seguro para esses atendimentos. 

Além do obstáculo da falta de estudos na área, a médica informa que também tem a questão dos profissionais com dificuldade de lidar com essas pacientes que fogem a regra da heteronormatividade, fator vindo tanto da falta de preparação nas faculdades (não uma ou outra universidade, a falha é do sistema de ensino médico inteiro) como das cargas de julgamentos pessoais dos próprios profissionais de saúde. 

Para Mayara, tudo isso culmina em um atendimento que já subentende que esta mulher é heterosexual e ela acaba recebendo as orientações de um grupo o qual não pertence.

E quando informado ao profissional sobre a sexualidade da paciente, muitas vezes, subentende se que ela é um ser assexuado, virgem, que não tem riscos sexuais, deslegitimando e ignorando o sexo entre duas mulheres. 

“Este grupo de mulheres tem uma pluralidade imensa, assim é importante lembrar que essas diferenças existentes influenciam na maneira que a paciente é atendida. Por exemplo: uma mulher de classe média, branca em um atendimento em uma clínica particular provavelmente tenha uma experiência diferente de uma mulher negra da periferia sendo atendida pelo SUS”. 

Os impactos enfrentados no atendimento ginecológico para mulheres lésbicas

Atualmente, Mayara está fazendo um estudo no qual mulheres lésbicas e bissexuais foram convidadas a darem seu relato espontâneo e anônimo sobre suas experiências com o atendimento ginecológico e conta que recebeu inúmeros depoimentos de abusos verbais, agressões psicológicas e até mesmo físicas. 

Com o estudo, a médica vem concluindo que o despreparo da equipe de saúde e dos próprios médicos em lidar com a situação é nítido e sentido pela maioria das mulheres que procuram esse atendimento. 

“Estas mulheres relatam que muitas vezes são coagidas a não falar sobre sua sexualidade, pois têm medo de sofrer homofobia ou ficarem estigmatizadas no ambiente de atendimento. Com isso, acabam indo para casa com receitas de anticoncepcionais, camisinhas masculinas e com muitas dúvidas na cabeça. Válido lembrar que as mulheres bissexuais sofrem um estigma muito grande de promiscuidade quando revelada sua orientação e que não existe acolhimento e escuta dessas pacientes na maioria dos casos”.   

Em busca do atendimento ideal

De acordo com Mayara, o atendimento ideal é aquele que leva em consideração todas as particularidades da paciente. Primeiramente, é preciso criar um ambiente seguro e livre de julgamentos para que a mulher possa se sentir à vontade para falar sobre sua vida sexual. Não prejulgar informações nem pela aparência ou por sua orientação sexual. 

“Muitas mulheres lésbicas ou bissexuais têm práticas sexuais completamente diferentes umas das outras, por exemplo, no que tange a penetração vaginal, uso de dildos e outros acessórios etc. A escolha do espéculo para fazer o exame ginecológico e coleta do papanicolau pode ser adaptado levando em consideração essas informações.  É preciso individualizar esse atendimento para que ele seja efetivo e, acima de tudo, não danoso ou traumatizante”, finaliza Mayara 

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