Durante meus contínuos processos de reinvenção, um dos aprendizados que mais demorei a praticar foi a escuta. Não falo aqui da arte tão necessária de perceber o outro para obter uma comunicação empática e eficaz (isso daria outro post), mas de escutar-se. 

Gosto de pensar que a audição é um sentido que está no extremo oposto da visão; enquanto uma codifica a luz refletida e nos impulsiona para fora, convidando à conexão com o mundo exterior, a outra transporta os sons para dentro da gente, levando à apreciação do próprio mundo interior. 

No verdadeiro escutar (que é muito diferente do “ouvir fisiológico”) é preciso muita atenção para interpretar todos os estímulos sonoros. Se pararmos para pensar, de nenhuma outra maneira o mundo físico penetra tão profundamente dentro de nós como através do ouvido, por isso proponho a observação da escuta em 3 níveis: 

  1. Com o pensar, num processo cognitivo e funcional, algo que está totalmente conectado com o sentido mais literal da audição;
  2. Com o sentir, quando é possível identificar os sentimentos que os sons provocam; 
  3. Com o querer, uma escuta sutil que via de regra está associada aos órgãos metabólicos e aos nossos membros. E como isso é possível? 

Meu desejo é sensibilizar sobre a importância de buscar, a partir da exploração sobre si, em seu tempo e utilizando-se dos próprios recursos internos, uma conexão íntima o suficiente consigo mesmx para que essa capacidade possa ser um dos objetivos da autoeducação. 

Sabe aquele aperto na boca do estômago ou aquela necessidade de sair correndo de uma conversa? É esse tipo de sensação que faz parte desse último nível e, pelo menos para mim, é o que exige atenção. O corpo também codifica os estímulos sonoros, mas nem sempre os sinais são tão contundentes. 

Quando dei o devido crédito ao assunto me surpreendi ao constatar que muitas vezes não havia razão ou emoção suficientemente relevantes para justificar certas reações que pulsavam dentro de mim. Aprendemos desde cedo a relativizar e a não dar “ouvidos” a esse nível de escuta, abafando os sons quando estes se propagam por vísceras e músculo, desconsiderando a capacidade de trazerem notícias do mundo que se segue do lado de fora, poupando-nos energia. Muito já se falou do apreço que nossa mente tem pela chamada “zona de conforto” e é para lá que nossa desatenção nos leva com maestria. 

Vem já da graduação meu interesse pela fisiologia do aparelho auditivo, sempre achei curioso o fato dele também controlar o equilíbrio postural (quem já teve labirintite sabe bem o que isso significa!). 

Anos e cabeçadas depois percebi algo que agora me soa bastante óbvio: se considerarmos os três níveis que citei e que o equilíbrio e a audição estão intimamente ligados, compreenderemos que não é só no equilíbrio postural que o aparelho auditivo pode atuar.

Exercitando a escuta de forma plena é factível afirmar que ela também é ferramenta útil para quem busca por um sentido de equilíbrio mais amplo. 

Autocontrole talvez seja o principal desdobramento psíquico dessa escuta mais consciente em seu segundo nível.  A identificação prévia dos sentimentos permite controlá-los de maneira consciente, organizando e compartimentalizando internamente os estímulos externos recebidos. Entretanto, existe um desdobramento ainda mais potente e sanante no terceiro nível: o equilíbrio espiritual. 

Quando codificamos, a partir de todos os estímulos sonoros captados, a forma como esses reverberam por vísceras e músculos e nos tornamos capazes de expressá-los a partir da vontade consciente de agir, colocando-nos num movimento integrado com o pensamento e com os sentimentos, encontramos um dos principais responsável por manter-nos fiéis aos nossos propósitos. 

Para mim, o ato de escutar até as entranhas é uma das forças mais poderosas para encontrar novas direções quando os caminhos obscurecem ou quando busco a confirmação para aquelas escolhas singulares, aparentemente incompreensíveis. Levar a escuta até o terceiro nível é o principal antídoto ao senso comum todas as vezes que percebo que esse pode estar atraindo como um imã ao conforto das velhas crenças, me deixando apta a cair na armadilha das respostas fáceis e convidativas para a imobilidade e nulidade.

Por que isso se dá?

Como disse, porque a escuta profunda é capaz de trabalhar em parceria íntima com o equilíbrio espiritual, gerando um movimento indissociável com o propósito, numa atitude bastante positiva para quem escolhe ser o protagonista da sua própria história. Portanto, se essa é também a sua busca: escute-se!

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