Em 2016, meu filho completou 9 anos e minha filha, 8, marcando o encerramento do meu projeto pessoal mais transformador: vivenciar integralmente a primeira infância deles.

Embora essa tenha sido uma decisão consciente e com prazo para conclusão bem estabelecido, fui tomada por tantas demandas decorrentes da maternagem que o tempo passou e eu não me planejei para retomar a carreira (ou pelo menos acreditava que não!). Havia me tornado de forma rápida, quase imperceptível (juro!), “inempregável” aos 39 anos.

Foi na vibe da gestão da sobrevivência que iniciei um novo projeto: empreender com propósito. Esse “detalhe” do propósito foi o catalisador dessa retomada, pois já que empreender sabidamente envolveria um esforço hercúleo, obter realização pessoal me pareceu uma excelente contrapartida pelos benefícios, hora extra, férias e 13o salário que não receberia mais.

No ano em que nossa economia atingiu seus piores índices, eu e minha sócia (que conheci pelo Facebook) metemos a cara e iniciamos um negócio que ainda era um protótipo, sem investidores, patrocinadores ou apoiadores. Começamos oferecendo recreação para crianças nas férias de julho. Recebíamos as crianças e incentivávamos os pais a permanecerem trabalhando gratuitamente no coworking.

O que ouvi inúmeras vezes nesse período foram frases do tipo: “você é muito empreendedora!”, “gostaria de ser empreendedor como você!”.

Observando as características de um empreendedor

Quando não aprendemos a nomear as habilidades que possuímos, sem autorreflexão, não somos capazes de nos identificarmos com elas. Já tinha ouvido muitas descrições sobre mim: comportamento desafiador, autocrítica em excesso, cabeça-dura, incansável, complexa… mas empreendedora, foi a primeira circunstância real!

Para saber se era empreendedora pedi socorro ao Google, caindo no site do Sebrae (conforme anotado manualmente em meu caderno de ideias e que, por isso, pode conter simplificação do texto e interpretação pessoal, mas que preserva a ideia central): “Conheça as características empreendedoras desenvolvidas no Empretec”:

  1. Agir de forma proativa
  2. Persistir para não desistir diante de obstáculos
  3. Possuir disposição para assumir desafios
  4. Disposição para fazer sempre mais e melhor
  5. Comprometer-se, trazendo para si a responsabilidade do sucesso ou do fracasso, atuando em conjunto com sua equipe para atingir os resultados
  6. Buscar informações de especialistas para decidir e envolver-se pessoalmente na avaliação
  7. Perseguir objetivos desafiantes e importantes para si mesmo
  8. Adequar rapidamente seus planos às mudanças
  9. Obter apoio de pessoas-chave
  10. Desenvolver autonomia para agir, confiando nas próprias opiniões mais do que nas dos outros, sendo otimista e determinado, mesmo diante da oposição e confiando na própria capacidade

Li, anotei e acabei por validar os rumos que vinha intuitivamente dando ao meu trabalho!

Observar as crianças e olhar para o empreendedorismo

Ao observar todas essas características que o empreendedor deveria desenvolver, eu fiz uma constatação: todas as crianças que eu vinha acompanhando, absolutamente todas, possuíam essas 10 características já muito evidenciadas nos primeiros anos de vida.

Atualmente defendo avidamente a ideia de que nosso empreendedorismo é inato e se mantém preservado nas crianças estimuladas pelo brincar livre.

Só para esclarecer: livre para brincar não deve ser encarado como sinônimo de deixar a criança “solta” e sem planejamento. As crianças merecem que aceitemos de um lugar muito sagrado e sereno que elas têm necessidade de experimentar, descobrir, procurar e pesquisar em segurança e sem a interferência direta do adulto. Criança precisa de tempo, espaço e companhia de outras crianças para cultivar sua autoconfiança. Ninguém se sente mais competente do que quando diz verdadeiramente para si mesmo: “eu consigo!”

Observar as crianças educou meu olhar e me acordou para o fato de que tenho sido empreendedora ao longo da vida e não apenas nos últimos três anos.

Minha sugestão: seria extremamente saudável brincarmos mais, sem foco no desempenho ou no placar final. Somos lúdicos e criativos por natureza e temos a capacidade de fazer transferência, personificar e imaginar, ofuscando temporariamente os problemas da vida cotidiana. As brincadeiras têm fornecido por meio da história elementos de formação da cultura humana, abrigando a gênese do pensamento e das descobertas sobre si mesmo e sobre como transformar o mundo ao redor.

As crianças são as grandes guardiãs de nossas características primordiais e nos relembram continuadamente quais capacidades devemos preservar e quais podemos aprimorar. A elas prestamos um serviço fundamental quando nos permitimos trabalhar de forma criativa, exercitando respeito e autorresponsabilidade, pois é assim que lhes contamos que o mundo dos adultos não precisa ser necessariamente inóspito, competitivo, rígido e inseguro. Reduzir as distâncias entre os universos de adultos e crianças é também um desafio crucial da atualidade.

Existe um provérbio africano já muito difundido nas redes sociais que diz: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, mas não são só as crianças que precisam do nosso apoio, nós precisamos muito delas para nos relembrar quem somos de fato: todxs, pequenxs e grandes empreendedorxs!

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