Nos tempos idos, quando alguém queria divulgar suas ideias, colocava seu palanque em praça pública e desandava a discursar, chamando a atenção do povo ali presente. Décadas depois, basta um post nas redes sociais para que qualquer um faça chegar aos quatro cantos do mundo seu conteúdo, em poucas horas. A internet e as redes sociais abriram um palanque moderno de dimensões nunca imaginadas. Nunca antes vivemos com tanta conectividade.

Estudo do McKinsey Global Institute revelou que o volume de dados virtuais trocados entre países cresceu 80 vezes nos últimos 10 anos, com previsão de se expandir mais 10 vezes até 2020.

É uma conectividade que, entre outras coisas, dá acesso à educação a distância e movimenta os negócios, mas que, ao mesmo tempo, criou um grande desafio moral e ético: como impedir a rápida disseminação de conteúdos tão perigosos quanto discursos de ódio, incitação ao terrorismo e à violência?

Conectividade e ética

Sem dúvida, a web é um reflexo da complexidade da sociedade atual onde, apesar dos avanços, ainda sobrevivem crenças e ideais contrários aos direitos humanos, igualdade e busca do bem comum.

Assistimos perplexos à recente manifestação de apoio ao neonazismo na cidade de Charlottesville, nos Estados Unidos. O conflito com opositores que tentaram colocar fim ao levante acabou com três pessoas mortas e mais de 30 feridos.

E deixou milhões de cidadãos chocados ao constatar que apologias tão nefastas quanto essas ainda proliferam, usando a rede para engajar mais adeptos. Apesar dos bloqueios e monitoramento do Google, o Estado Islâmico ainda consegue veicular seus vídeos no YouTube, com apoio de fanáticos cuja única função é espalhar esse conteúdo, distribuindo milhares de links pela internet.

As corporações por trás das redes se esforçam para combater o problema, motivadas não só pela cobrança social – e pelos anunciantes.

O Facebook implementou o Online Civil Courage Initiative, projeto que apoia instituições europeias que lutam contra o extremismo na internet, e o Global Digital Challenge, em que estudantes de 68 países criaram 500 campanhas em dois anos com o mesmo fim.

O Google Chrome possui extensões como o FlipFeed e o Escape Your Bubble, ambos com a finalidade de apresentar ao usuário postagens contrárias a suas posições políticas, econômicas e religiosas, em uma tentativa de estimular o diálogo.

Facebook, Microsoft, Twitter e YouTube se uniram para criar um fórum global para combater o terrorismo e o ódio nas redes, inclusive com uma base de dados compartilhada.

Claro que são todas ações relevantes, mas o grande dilema é que iniciativas isoladas não resolvem um problema mundial. E, por isso mesmo, muito complexo. Cada país tem sua legislação.

A marcha dos neonazistas norte-americanos aqui no Brasil seria um ato ilegal e seus integrantes passíveis de detenção. A apologia ao nazismo, em qualquer forma, é crime, segundo a Constituição brasileira. Mas nos Estados Unidos é permitida pela legislação que regula a liberdade de expressão.

Como então adotar uma legislação global, que contemple ao mesmo tempo as diretrizes de contextos tão diferentes?

Outro desafio enorme, especialmente nas sociedades democráticas: como estabelecer uma definição única do que é conteúdo impróprio, sem ameaçar os direitos do cidadão? Um post de oposição política pode ser visto como uma crítica legítima ou uma ameaça ao regime em vigor.

Onde começa o direito à censura e quem determina? Governos, empresas, entidades e movimentos sociais buscam respostas e soluções para o impasse. Inventamos a conectividade e colocamos todos em rede.

Agora temos que inovar mais uma vez para que a democracia e a liberdade, aliadas ao bom senso, possam compor o elemento autorregulatório deste novo mundo.

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